segunda-feira, 2 de julho de 2012

O amor de Teresa


O amor de Teresa                                             


     Teresa abriu os olhos, enxugou as lágrimas e levantou-se como se erguesse o firmamento sobre si. Seus olhos fitaram as rochas e seus musgos úmidos, e a suave maresia subia-lhe as narinas dilatadas por tanto desejo de ar. Começou com passos firmes enquanto a face do seu amado capitão tomava-lhe todo o pensamento. Lembranças de momentos singelos em que retribuía juras de amor... outros eróticos que somente o mar, areia e estrelas testemunharam. Tanto amor e um pouco de paz. Foram assim os dias desde que se conheceram na feira dos pescadores.
     Enquanto acelerava os passos, tentava não lembrar o jugo familiar que carregava. Tradições, preconceitos, ganância e ordens patriarcais que a transformaram, como ela própria dizia, em verme.
     Queria sim, casar-se e gerar muitos filhos, como tantas outras raparigas lusas sonhavam em envelhecer e morrer para serem lembradas como árvore outrora frutífera.
     São apenas sonhos, ouvira tantas vezes, mesclados ao hálito de um passado doloroso, pelas bocas enrugadas das viúvas desgraçadas que pairavam como gralhas sobre a vila. Mas não sabiam elas que sua oportunidade viera do mar. Um anjo da liberdade trajando homem. E como poderiam saber? Seus corações já desconheciam o amor -- a ineficiência da razão sobre um motivo, sem explicação, de sentir o verdadeiro sentido de viver. E era assim que nutriam o desejo de não vê-la feliz, mulheres e homens que se entregaram ao sórdido oportunismo. Queriam casá-la com outro homem, outro oportunista rico, gordo e feio, sem falar na idade que dobrava a sua. É o dinheiro o príncipe do mundo, cujas paixões subvertem até mesmo aqueles que um dia conheceram o amor.
     Ofegante, expelia pelo ar a imaginável vida infeliz, ao lado daquele porco rico. Seriam noites sufocantes com ele sobre si, suando fétido o odor do inferno. Não teria prazer nem atenção às suas volúpias, não ofereceria também nada além do seu corpo e seu silêncio. Teria sim, todos os benefícios materiais que uma mulher poderia querer. Um palacete repleto de quartos, talvez um jardim exuberante onde seus filhos brincassem alegres, correndo por entre as floradas. Vestidos dos mais belos tecidos árabes, além de jóias caras e raras. Conheceria o mundo, andaria pelas ruas de Veneza, Paris, Marrocos, e quem sabe até Jerusalém. Poderia assistir a óperas de Rossini, Verdi, peças de Shakespeare e Moliére, talvez aprendesse a cantar ou tocar piano, já que a cultura e a arte seriam opções para lembrar que a vida podia-lhe oferecer seus encantos. E ao quase tropeçar, explodiu-lhe o asco, sentiu que uma força a abalava comprimindo o peito. Não hesitou um gemido dolente para que novamente as lágrimas lhe banhassem o rosto.
     Não há mais tempo, ele está partindo, o amor. Corre, dizia-se a si mesma para que no cume de suas forças pudesse ser a senhora do tempo. Seus passos agora marcavam pesadamente a areia, e respingava-lhe no rosto feliz a água salgada a quem tanto agradecia. Corre, corre Teresa. Seu tempo chegou, sua liberdade acordou-lhe para a viagem. Não o deixe partir sem ti. Vá amalgamar-se a esse anjo que lhe tomou o coração e anseia por tê-la sempre, sempre, sempre... Seu corpo agora parecia alçar vôo, e sua mente proliferava a própria voz até não mais distinguir o que realmente estava pensando. Parecia ouvir tantas vozes, cada qual com suas orações. O pai rude, gritando e cuspindo ordens, a mãe, não, esta quase nada dizia, mas podia ouvir seu sorriso tímido e encorajador dizendo-lhe vá e viva também por mim. As gargalhadas das prostitutas e os berros de seus bêbados polifonizando gemidos, bofetadas, pragas e ladainhas.
     Perdida num labirinto, seu peito pulsava o capitão, e ele nada dizia. Apenas tomava-lhe a mão e bailavam sobre as ondas do mar infinito. Envoltos pelos próprios olhares, poderia até não ouvir as vozes, a não ser aquela que lhe chamava pelo nome. Uma voz no vento, a chamando para a luz do dia, talvez fosse uma ária esquecida no mais profundo recanto do seu ser, ou a desordem de seus pensamentos que se transformavam em loucura. Não, dizia a si mesma, cale-se. Mas não havia como cessa-la, a voz aturdia, fincava-lhe como adaga, algoz e impiedosa vencia... Já não sentia mais a areia sob seus pés, nem o vento em seus cabelos, tudo parecia uma mera pintura envelhecida, um retrato figurando seus desejos.
     Veja, dizia-lhe sua própria voz, e depois vá se quiseres. Então podia ver-se ao lado de seu amado capitão, homem forte e seguro, acostumado às incertezas da vida e seus infortúnios. Com passado, presente e futuro, todos esquecidos dentro de um sorriso sincero, mas não oferecido, e sim apenas existindo, indomável e inebriante. Ele a quem tanto ama, deixando-a sob a varanda de uma casa escura, acalentando em seus braços um recém-nascido, embalado numa velha cadeira.
     Para onde partira guerras, pescas, colonizações? Nada saberia. Em quantos portos abordaria, com quantas prostitutas dormiria, ou será que lembraria da mulher e filho? Voltariam sim, todos voltam, quando solitários e maltratados. Dormiria um dia ou dois, e na última noite, ao toma-la, abriria suas pernas e fecundaria ali mais um herdeiro. Contaria histórias e mais histórias sobre desbravamentos, vitórias e fracassos. Ela, apenas o ouviria tentando esboçar um sorriso e um olhar confuso entre o orgulho e a indiferença. Ora, o que uma mulher precisa saber, apenas que seu homem a ama e como ele merece seu amor. Sim, Teresa, ele a amaria como agora, sem desperdiçar nem acrescentar confissões.
     Ao lembrar que todos morrem, e poucos retornam para que se possa enterrá-los, quanta solidão fúnebre abrigaria em seus dias. Quanta saudade teria da espera, de seu olhar vívido para o mar, de seu coração aflito e da ignorância surpreendida pelas histórias das quais não participara. Conseguiria viver para os filhos, repetir as histórias que ouvira, tentaria envelhecer com dignidade, mesmo tendo que voltar ao convívio familiar. Seu pai a receberia como um fardo, estufando o peito e a relembrando do que avisara. Sua mãe não diria nada, como sempre, apenas afagaria seus cabelos com as mãos trêmulas, suspirando seus próprios augúrios. Trágico, deveras, tudo finda em si mesmo, a vida segue os sonhos, e termina sem os desvendar. Amargo é o gosto do amor quando este nos esquece, nos esgota e ridiculariza a única coisa que nos faz vivos, nossas escolhas.
     Não quero mais ouvir, disse a si mesma. Ofegante, sentia o corpo fraquejar, cessou a frenética corrida. A areia gélida castigava seus pés, e o céu fechava-se com negras nuvens. Apoiando-se nos joelhos doloridos, contemplou a própria sombra. Ergueu-se lentamente enquanto olhava as mãos, os seios, o ventre, até inspirar levemente o ar. Avistou não tão distante, o cais. Nele estava o seu capitão, esguio e tranqüilo à sua espera. Buscou gravar dentro de si aquela imagem feita de luz e sombra, gestos e silêncio, distância e nada mais. E quando já alçavam âncora, suspirou o medo de vê-lo partir, e lentamente virou-se e retornou o caminho de volta. Sabendo que dali não obteria respostas, e tampouco se ateve a perguntas, aceitando-se como a escolha que nunca tivera.
     Agora em passos leves, conduzia-se ao caminho que a levaria, de qualquer forma, ao mesmo fim que imaginara. Casaria-se com aquele a quem não daria mais do que seus dias de espera. E no fim, ao tornar-se viúva, seria como as outras da vila, que em noites de frio, acolhe as mãos entre as pernas, e solitárias sonham suas memórias.

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