segunda-feira, 2 de julho de 2012

A moça sentada


                                                        A moça sentada



      A moça sentada, não espera levantar-se. Seu olho se difere d’outro, coisa estranha ou alguma espécie de mensagem interrompida. Sua imagem é fria aos olhos de outro, mas nos meus, bem que se reflete como espelho d’agua. Não chora, não sorri, talvez sonhe, ou seja, outra história igual a minha. Não, acho que igual a minha... Não, não é. Ela vagina seus sonhos, sentada, esperando não se levantar por si mesma.
      Seu corpo tem segredos que só os hematomas podem contar. Podem não ser bons, e estiveram bêbedos os suficientes para tentar convencer que foram ruins. Sei lá se não foram. Essa moça tem jeito que nem sei. Quem sabe ela não vagine também a cura para esse anteontem que, como disse o outro, não fui eu e não quero saber quem foi. Mas pelo jeito, eu não gosto de ficar reparando, mas pelo jeito ela vai ficar aí nessa esquina até Deus sabe quando. E eu vou ficar olhando, não que eu goste de ficar olhando, é só pra saber como é, ou como foi se ela levantar seu corpo com segredo e tudo e sair por aí como se não houvesse vaginado nada e eu com isso, a vida é dela.
     Até agora ela é moça, e amanhã eu nem aqui estarei olhando, não que eu não goste de ficar olhando, é que eu não sou desses aí como aquele outro que olhou e nem viu que ela estava sentada não esperando levantar-se. Se ela não levantar, que se dane. Quem vagina é ela e não eu. Mas dá dó, viu. Eu aqui aflito, esperando só pra ver.
     A moça sentada que não quer levantar-se, nem quero saber o porquê, vou ficar olhando só. Quem sabe ela não me sirva de sonho, toda assim moça vaginando segredos só pra mim. Então eu era o outro que a levantava como espelho d’agua que aumenta o tamanho do reflexo dos sonhos. Receberia sua imagem quente pra esquecer-se da minha fria. Se ela fosse assim, no meu sonho, teria tapete de pétalas de rosas para sentar-se e não se levantar jamais, nem eu olhando ficaria, sobre ela voaria como vento e como pássaro também. Seria tudo para ela e nada além de mim ela teria. Ora, o sonho é meu, faço o que quero com ele e com ela. Meu cetro de quatro olhos é como aquele par de olhos que se enxerga no espelho. Não, esse não é d’agua, porque aquele era outro que esqueci por onde comecei. Tanto faz seus sonhos eu sonho primeiro e te dou porque quero, não porque acho que precise de alguns trocados. Se bem que, mudando de sonho, ela até que sonha bem. E se ela sonhasse comigo, poderia ornar-se de um belo par de olhos d’agua. Lacrimejaria ela moça vaginando sonho algum por entre outros como eu olhando, não que eu estivesse apenas olhando, é que eu olho diferente, não como aquele que passou e nem viu que ela estava no meu sonho, e o sonho é meu, que se dane eu e meu sonho, é ela que vagina nele e não o outro.
     Todos os outros passaram e fingiram que não a viram, mas viram, sim. Eu sei por que pra eles eu sou o outro, não o outro que fica só olhando, eu não fico só olhando, é que eu não falo mal de ninguém. Mas aquele outro, ó, ele viu também, eu sei que sei e não falo. Essa moça está aí faz tempo, ou tinha outra no lugar dela e nem a vi levantar-se pra essa aí tomar o lugar. Mas está demorando muito e já não passa mais ninguém por aqui. Estou cansado de sonhar com ela. Ela até que é chatinha, sem graça, porque que não se levanta logo e me deixa em paz. Faz-me ficar aqui esperando ela não esperando levantar-se, olhando e olhando todo mundo me olhando e falando que eu só olho e nada mais sonho. Eu não fico só olhando, não, já falei. Até acho que ela me viu e sorriu talvez vaginou um olhar meio diferente daqueles que o outro falou que ela vagina. Eu nunca vi nada disso, eu nem falo mal de ninguém. Foi o outro quem falou e que se dane ele e o outro também, eu não olhei nada que eles olharam no espelho deles, que nem d’agua é. E se estou olhando, tenha dó, quem vagina é ela e não eu. A moça está sentada aí, e eu não falo mal de ninguém.
     Como é enfadonho descobrir que não se espera levantar-se porque não quer mesmo. É o que vejo nessa moça aí sentada, com jeito de moça que sei lá de onde veio, talvez nascesse sentada, talvez outra moça vaginou ela ou ela mesma se vaginou a ela e a outras que estão sentadas por esse mundo que nem se importa se estão sentadas ou não, vagina quem quer e como quer, é o que dizem os outros. Será possível tanta vaginação assim? Meu Deus! Não que eu saiba de outras, mas o outro disse que tem mais. Eu só sei dessa aí, e basta. Não suportaria ficar olhando e esperando um bando de moças sentadas vaginando um montão de sonhos não esperando levantarem-se. Eu só quero essa aí. Está bom assim. Não que eu despreze as outras, não é isso, eu sou pessoa boa e não falo mal de ninguém. Mas, deixe que os outros esperem as outras se levantarem. Essa, eu nem percebi antes, acho que eu já estava aqui olhando quando ela apareceu. 

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